Há um momento, em certas cidades europeias, em que o olho descansa quase por instinto. Uma fachada Art Déco, o desenho vivo de uma praça, a curva de um corrimão, uma estátua que repousa num jardim, rodeada de flores, relva e bancos.
Possuímos hoje, na palma da mão, as peças de tecnologia mais sofisticadas da história humana, mas teremos parado de contemplar? Quando foi a última vez que deixámos que o belo nos transcendesse? Esta ausência de silêncio e de espanto afasta-nos da própria essência da palavra cultura.
Os candeeiros, outrora bem trabalhados, com altos relevos, vão sendo substituídos por finas estruturas que servem apenas o seu propósito primário, suportar a iluminação. Parece um detalhe mínimo, aliás, parece que o detalhe não importa mais. E, se transportarmos a visão do candeeiro para o que sobra da rua, reparamos que os prédios, outrora com elegantes fachadas, pontilhadas de bustos, cores vibrantes e com um fino equilíbrio entre o deleite estético e a funcionalidade humana, se confundem com edifícios onde fica evidente que o orçamento ditou mais do que o enquadramento estético e a funcionalidade venceram o Belo.
Mas desenganemo-nos de achar que o detalhe desapareceu apenas da decoração e da arquitectura. Esta ausência da primazia do Belo, que se traduz noutros domínios como ausência de atenção, imediatismo, consumismo e volatilidade, está presente em inúmeros domínios da nossa vivência diária.
Do design de vestiário de rápida rotatividade de uso à alimentação que dá primazia, não ao pão que demora a ser produzido, mas ao produto que dura, à fornada quente de hora a hora, ao fugaz. Mas também nos processos de socialização a evidente preferência pelo rápido, imediato e imediatamente recompensatório está bem patente. Ou nos serviços de atendimento, se não esbarrarmos em atendimento virtual, o processo está desenhado pelo guião, a tendência é encaminhar, não resolver, não estar focado no detalhe que o interlocutor evoca.
A enumeração comparativa poderia continuar, mas interessa-me mais entender como é que o detalhe, quase ausente da nossa vivência contemporânea, não é apenas mais um factor perdido nos restantes que nos transformaram numa sociedade alheada do real. Aquele real onde se vê que o detalhe é o lugar onde se vê se alguém amou o mundo o suficiente para o terminar.
O detalhe, que exige tempo – de quem o constrói e de quem o absorve – torna-o luxuoso. Ter tempo. para olhar com vagar, contemplar, saborear, é uma raridade no Século XXI. E, se o luxo é visto como elitista por muitos, deve-se considerar que elitista é reservar o detalhe para marcas premium e negar a qualidade ao comum. Quando se despem os candeeiros do seu ornamento, dizemos à sociedade que a rua não é mais do que ponto de passagem rápida, sem nada mais para oferecer. Esquecemos o passeio, o ambiente, o belo para nos apoiarmos numa economia de escala onde se prefere a massificação, o parecer bonito e o belo pelo suficiente.
Que mensagem passamos à sociedade quando dizemos que tudo deve ser útil, tudo deve ser funcional e nada precisa de ser Belo? Que sociedade criamos partindo desse pressuposto? Quando normalizamos o banal, o aceitável, o medíocre, passamos a considerar o detalhe como luxo, o feio como normal, a concepção de que a utilidade prevalece sempre. Assim, a beleza da vida humana, deixando de ser bela, terminará quando deixar de ser útil?
Quando nos debruçamos sobre questões estéticas, ou melhor, sociológicas, tal como em Entzauberung e vemos como o mundo foi, aos poucos, perdendo a magia, perguntamo-nos se não é necessário que o mundo seja um pouco mais mágico, mais fantasioso, mas esperançoso. Afinal, não é isso que buscamos na arte? Não é assim que ficamos quando um filme nos transporta para a sua atmosfera? Não sentimos este ímpeto no Natal, com as ruas enfeitadas, a magia do acreditar e a ténue linha entre o mito, a fantasia e a realidade?
E, no entanto, é precisamente quando entramos no domínio da arte que a nossa época parece querer garantir, por todos os meios, que a magia não se torne demasiado perigosa. Aceitamos, com entusiasmo quase infantil, as luzes de Dezembro, a música de fundo, os enfeites que suspendem por umas semanas a geometria dura do quotidiano. Mas mal se volve o calendário, voltamos ao regime do “suficiente”, como se o belo fosse apenas um adereço tolerado, uma concessão sazonal, um intervalo simpático antes de retomarmos a disciplina do útil.
A pergunta, então, deixa de ser apenas onde anda o detalhe. Passa a ser, que lugar lhe reservamos quando o detalhe é aquilo que torna a cultura mais do que uma agenda, e a arte mais do que um produto? Que espécie de mundo cultural construímos quando a primeira coisa a ser cortada, seja por orçamento, por pressa, por hábito, é a delicadeza que não se mede, a subtileza que não se traduz em relatório, o silêncio que não cabe numa métrica?
Há, hoje, uma tendência a pedir à cultura que se explique como se fosse um serviço público de utilidade imediata e conceito como impacto, números, alcance, segmentos, públicos-alvo, indicadores. Nada disto é, por si, ilegítimo. O problema começa quando estas palavras deixam de ser ferramentas e passam a ser soberanas e quando o meio se disfarça de fim e, lentamente, a programação cultural transforma-se numa burocracia da experiência, numa “gaiola” onde tudo tem de justificar a sua existência por via do que se contabiliza, do que é medível, apenas do tangível. O que não se mede, a atenção, a transformação íntima, a reverência, o espanto, a catarse, fica relegado para o campo do intangível, e isto é neste domínio, sinónimo do descartável.
E assim, de forma quase imperceptível, a arte é empurrada para duas caricaturas complementares, por um lado de entretenimento leve, pronto a consumir e pronto a esquecer, e por outro de instrumento de utilidade moral, social, política, turística, pedagógica, como se a sua legitimidade dependesse de servir uma causa externa. Entre a espuma e o panfleto, sobra pouco espaço para aquilo que a arte tem de mais próprio. Isto é, a capacidade de nos deslocar de nós mesmos, de tornar o mundo mais habitável por via do sentido e da forma, de nos oferecer uma verdade que não é a do argumento, mas a da presença, de regressarmos à magia, ao fantástico, ao profundo.
O detalhe, aqui, é o primeiro a cair porque é o mais exigente. Exige tempo, e tempo é caro. Exige cuidado, e o cuidado é lento. Exige conhecimento do lugar, e o lugar dá trabalho. Um concerto não é apenas só isso, um concerto, é o modo como se entra no espaço, a forma como o programa é escrito, o respeito pelos ritmos do público, a qualidade da luz, o mínimo de silêncio protegido antes de começar, a dignidade com que se trata o som e a escuta. Um museu não é apenas uma exposição, ou um conjunto delas, é a relação entre as peças, a ética da legenda, a coerência do percurso, a recusa do ruído visual, a coragem de não “encher” por medo do vazio. E uma temporada não é uma lista de eventos, é uma narrativa. E uma narrativa que vive de transições, de pausas, de proporções, de intenção, ou seja, precisamente aquilo que o utilitarismo cultural tende a achar supérfluo.
O resultado sente-se no corpo. A cidade “cultural” começa a parecer-se com a cidade “funcional” com muita oferta, mas pouca memória. Com muitos eventos, mas pouco acontecimento real. Onde existem cartazes por todo o lado e, paradoxalmente, menos presença. O público é tratado como consumidor de estímulos e não como cidadão de uma experiência. E nesta metamorfose moderna, a própria linguagem muda e já não se fala de obras e de encontros, masfala-se de “conteúdo”, de “activação”, e de “engagement”. A cultura, que deveria ser lugar de resistência à pressa do mundo, começa a imitar a pressa do mundo, quase como se quisesse provar que sabe jogar o mesmo jogo.
É aqui que Scruton se torna particularmente incómodo, no sentido fértil do termo. Porque Scruton obriga-nos a dizer em voz alta aquilo que muitos preferem manter como embaraço privado, e que a beleza não é uma sobremesa, é uma necessidade humana. Não necessidade biológica, mas necessidade civilizacional. Uma comunidade que não cuida da beleza, seja na arquitectura, na música, no espaço público, na forma como celebra e recorda, enfraquece a sua capacidade de pertença. E sem pertença, o mundo torna-se transitório, um cenário de passagem onde ninguém sente deveres porque nada parece digno de ser herdado.
Por isso reafirmo, a ausência de belo não é apenas uma questão de gosto, é uma questão de vínculo. Quando o espaço comum é feio ou indiferente, quando a cultura é tratada como distração ou instrumento, quando a programação se limita a “ocupar” em vez de formar, educar e elevar, estamos a treinar-nos para uma espécie de cinismo quotidiano. E o cinismo é o contrário do detalhe, porque o detalhe nasce da convicção de que vale a pena.
Porque se a arte serve para alguma coisa, e não devemos duvidar que serve, é para devolver ao mundo a sua espessura. Não para o tornar irreal, mas para o tornar novamente digno de ser habitado. E talvez o detalhe seja exactamente isso: a pequena prova de que ainda não desistimos. O ornamento do candeeiro, a legenda bem escrita, o programa com pensamento, a pausa certa antes do acorde final. Sinais discretos, mas decisivos, de que alguém amou o mundo o suficiente para o terminar, e amou também o outro o suficiente para lhe oferecer mais do que o suficiente.
Dezembro de 2025
Rui Valdemar
Cultural Strategist