Dark Mode Light Mode

Afinal, quem é dono do Carnaval?

Ascolta la versione audio di questo articolo (generata da IA).

Saltam. Abanam. Chocalham. As tradições vão sendo recuperadas e, qual reconquista que se organiza nas montanhas, o Carnaval e as festas que antecipam a Quaresma voltam a emergir partindo de Trás-os-Montes.

Os caretos, as máscaras tradicionais, as figuras do Velho e da Galdrapa ganham grande projecção mediática nesta era do imediatismo. Mas nessa mesma era vemos, quase em simultâneo, a reacção e opinião de quem viu, de quem queria ver e de quem participou.

Fazendo um rápido scroll nas publicações das entidades que promovem estas actividades, notamos comentários de descontentamento com vários fundamentos. Ou porque os locais estavam com demasiados visitantes, ou porque alegadamente não havia inovação na tradição. É sobre isto que urge reflectir, até porque o Carnaval já passou e o eco destas práticas perdura muito além da Quarta-Feira de Cinzas.

Por isso a pergunta central que proponho é simples. Como é que a tradição convive com a inovação? Serão as tradições voltadas para o turismo, para que as experiências de quem vem de fora sejam sempre novas e intensas, ou servem para fechar e iniciar ciclos das comunidades locais? Serão actos simbólicos que nascem e vivem para a comunidade ou actos teatrais para mostrar artificialismo a quem chega?

Não creio que os ritos devam ser cristalizados. Eles são resultado da própria evolução, das mudanças sociológicas e da comunidade de onde emanam. Deve haver, naturalmente, uma tendência para preservar a tradição no sentido lato do conceito, juntando-lhe a criação de acervo documental e estudo contextual, mas acolhendo as variações que surgem como fruto do tempo e das variáveis envolventes ao seu próprio contexto.

A entrada de mulheres em tradições outrora estritamente masculinas é um claro exemplo disso. Trata-se de uma inovação orgânica, ditada pela necessidade demográfica e pelo instinto de sobrevivência das aldeias. Ou se adaptavam, ou morriam. Esta inovação, por contexto social, não apaga o rito, bem pelo contrário, permite que ele continue.

Contudo, não me parece justo que uma tradição tenha de evoluir apenas pela imposição da mudança constante, pelo simples desejo de agradar às massas, à comercialização e às correntes turísticas. À luz do princípio da subsidiariedade, a tradição é um bem comum cuja propriedade moral pertence à comunidade, e não ao mercado. É esta matriz que nos permite separar a hospitalidade da disneificação. A hospitalidade acolhe o visitante integrando-o no rito autêntico, enquanto que a disneificação deturpa a alma do lugar para a empacotar à medida de quem consome. Quando o evento vira as costas à sua raiz em prol do bilhete, as populações perdem, lentamente, o interesse naquilo que delas próprias emanou.

A mesma pressão externa que exige novidade turística ao rito desdobra-se noutra frente. Refiro-me à vontade constante das últimas décadas de transformar em manifesto artístico tudo o que parte de um outro princípio estético. O espectáculo deixa de ser vivido enquanto momento de catarse ou lazer comunitário e passa a ser avaliado pelo seu arrojo intelectual, pela vanguarda e pela criação surreal. O espectador deixar de ser um participante que deseja lazer e fruição estética e passa a ser uma cobaia, um observador do acto do criador, em total contradição da sua vontade natural de lazer. O criador contemporâneo tenta apropriar-se do costume para cruzar mundos e fazer o nunca visto. Sendo um exercício meritório nos seus próprios palcos, o problema instala-se quando se exige à tradição popular que viva apenas para sustentar essa mesma afirmação pela diferença.

Afinal, o que tem de mais espectacular do que cruzar dois mundos? Pouca coisa diria. O rito ancestral já faz isso naturalmente na nossa vida, unindo a nossa identidade profunda à realidade actual. Quando os caretos chocalham em Podence, quando do planalto transmontano até às encostas do Douro em Lazarim saem as máscaras, ou quando nas Arcas, ou em Bragança e em tantas outras aldeias, vilas e cidades ocorrem as festas do solstício, existe algo de transcendente a acontecer. O mesmo se aplica aos Pauliteiros que, longe de serem um exclusivo de Miranda do Douro, como uma tentativa de refundação do século XX tentou rotular, eles são a expressão viva de toda a Terra Fria Transmontana que fazem jus á origem celta das mesmas. Batem. Cruzam. Transcendem. Um mundo fascinante que nunca existiu, mas que percorreu este durante séculos, continua a fazer-nos um convite.

Vale a pena lembrar que a UNESCO validou o Carnaval de Podence precisamente pela sua capacidade de salvaguarda comunitária, inscrevendo-o como Património Cultural Imaterial da Humanidade em Dezembro de 2019. Não foi premiado por se tornar outra coisa, mas por se manter vivo, por uma comunidade que sabe renovar sem se trair.

Nós não precisamos do estival Carnaval carioca durante os meses de Inverno em Portugal, nem precisamos de procurar muito lá fora por grandes opções para esta época do ano. Temos no nosso interior, que luta contra a desertificação, um manancial autêntico e genuíno que precisa de ser experimentado em contacto íntimo com a comunidade local. Para que tudo isto perdure, os fundos públicos de apoio à cultura devem financiar a capacidade da comunidade de viver o seu próprio rito, não a máquina de marketing turístico que corre o risco de transformar os verdadeiros guardiões da tradição em meros figurantes da sua própria história.

Saltam. Abanam. Chocalham. E, se formos prudentes, permanecem.

Previous Post

Nella lingua di Dante

Next Post

La Presidenza della CEV in visita a Roma: Comunione e Preghiera