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O sol sobre o Baldaquino

Já antes o disse, o sol de Inverno tem um caracter especial, e em Roma é uma coisa muito particular. Pois não aquece verdadeiramente, mas insiste, oblíquo e claro, como se quisesse marcar presença sem impor condições. Na manhã do dia 1 de Fevereiro de 2026, essa luz entrava pela nave da Basílica de São Pedro com uma paciência quase litúrgica, depois de dias de chuva e vento. E descia ao longo das pilastras colossais, tocava o bronze retorcido das colunas do Baldaquino de Bernini e vinha pousar, sem cerimónia, na consola do órgão onde eu me sentava. Tinha as mãos sobre os manuais, a procissão de saída ia começar. Durante os minutos que se seguiram, o que me coube foi tentar não atrapalhar aquilo que o lugar já estava, por si mesmo, a dizer.

Toquei um Voluntary de John Stanley, e a escolha de uma peça do século XVIII, de arquitectura simples e luz directa, escrita para servir e não para exibir sofisticação. É o tipo de música que não exige a admiração do ouvinte, pedindo-lhe apenas que se deixe acompanhar até à porta. Era exactamente o que se esperava numa procissão recessional, em que um gesto de despedida contido, quase uma cortesia sonora diante do sagrado. No entanto, no contexto daquela nave, permeada por aquela luz e pela turbe que adensava o ruído de fundo entre cada acorde, mesmo uma peça modesta ganha uma dimensão que não lhe pertence. Nem a ela, nem ao compositor, nem a mim. Mas pertence ao espaço e ao tempo daqueles que presenciaram.

A Missa Capitular das dez e meia é, todos os domingos, a celebração própria do Capítulo da Basílica de São Pedro. Naquele Domingo do Tempo Comum, presidiu o Cardeal Mauro Gambetti, O.F.M. Conv., Arcipreste da Basílica e Vigário Geral para o Estado da Cidade do Vaticano. O curioso de estar um franciscano de Assis chamado a guardar a casa-mãe de toda a cristandade. A assembleia não era vasta, mas era séria, composta na sua maioria por fiéis regulares, alguns religiosos e peregrinos que chegaram cedo. Não houve nada de espectacular, e era precisamente essa sobriedade que tornava o momento verdadeiro. Em bom rigor, o Cânon Romano não precisa de multidões, apenas que se sinta, e precisa de presença.

Convém recuar um pouco para contextualizar como cheguei ali. Enquanto Delegado Nacional da Tota Pulchra para Portugal, desloquei-me a Roma no final de Janeiro de 2026. O objectivo principal era de natureza institucional, com alguns encontros com outros delegados, algumas reuniões de reorganização da instituição e conversas sobre o futuro dos programas artísticos e das parcerias que a Tota Pulchra mantém e pretende alargar. Tudo sob o patrocínio directo de Monsenhor Jean-Marie Gervais, Prefeito Coadjutor do Capítulo da Basílica de São Pedro e Presidente da associação. Fiquei uma semana, a viajar sozinho entre cada espaço de encontro. Mas o trabalho organizativo, por mais estrutural que seja, nunca é, e em especial em Roma, apenas organizativo. Na cidade eterna, até uma agenda de reuniões acaba por ter um fundo de eternidade, porque Roma não permite que nada se faça inteiramente fora do alcance do belo, nem do ocasional, nem do esporádico.

O encontro com Monsenhor Gervais e com Lelio Deganutti confirmou algo que já intuía, que há na missão da Tota Pulchra um duplo movimento. Por um lado aprofundar as raízes espirituais e, simultaneamente, projectá-las para um diálogo global. A arte sacra, quando levada a sério, não é serve apenas como decoração ou algo que apenas diz respeito ao passado ou aos grupos religiosos em questão. Porque é, acima de tudo,  uma forma de tornar visível o mistério que a liturgia celebra. A beleza, como nos recorda o próprio nome da associação – Tota pulchra es, Maria, et macula originalis non est in te – não é um adorno sobre a fé.

Foi exactamente na véspera do que vos descrevia no início,  sábado dia 31 de Janeiro, que a dimensão musical da viagem se iniciou, e de um modo inesperadamente livre. A Tota Pulchra, em parceria com a paróquia, proporcionou um encontro musical informal na Basílica de Sant’Andrea della Valle, no coração de Roma, a poucos passos do Corso Vittorio Emanuele. E diga-se, não foi propriamente um concerto no estrito senso. Foi uma comunhão de escuta, onde a música aconteceu com a naturalidade de uma conversa entre amigos numa sala que, por acaso, detém uma das abóbadas mais extraordinárias da cidade.

Sant’Andrea della Valle impõe-se antes de se ouvir seja o que for. É, aliás, impressionante a beleza e a magnitude daquele espaço. A nave é imensa e a fachada barroca de Carlo Rainaldi anuncia um interior que não desaponta quem arrisca visita-la. Isto porque os frescos de Domenichino nos pendentes da cúpula e a glória pintada por Giovanni Lanfranco no topo formam uma assunção vertiginosa que obriga o olhar a subir até quase perder o equilíbrio. A basílica possui um órgão histórico de dois manuais e trinta e seis registos, construído em 1845 e mantido até hoje pelos Organi Buccolini.

Toquei a solo nesse belo instrumento, escolhendo um programa que tentava ser, ele próprio, um mapa de afinidades litúrgicas e estéticas: Filippo Capocci, o grande organista romano de São João de Latrão, cuja linguagem tardo-romântica se enraíza profundamente na tradição italiana. Manuel Rodrigues Coelho, o mestre quinhentista cujos tentos nas Flores de Música representam um dos cumes da polifonia portuguesa para tecla. Eduardo Torres, compositor espanhol ligado à catedral de Sevilha, e John Stanley, o inglês cego do século XVIII cujos Voluntaries continuam a servir a liturgia com uma clareza inabalável. Não havia programa impresso nem formalidade excessiva, mas havia uma basílica magnífica, um órgão com história e pessoas dispostas a ouvir.

Talvez seja essa a vocação mais profunda de um momento assim, não a performance, mas a hospitalidade. A música sacra, sempre que acontece dentro de uma igreja, mas mesmo fora do contexto estritamente litúrgico, herda algo da própria liturgia. As paredes não são neutras e o eco não é o de uma sala de concertos. O silêncio entre as peças adquire outra densidade. Como escreveu São Paulo aos Colossenses, «cantai a Deus nos vossos corações com gratidão» (Col 3, 16), e há momentos em que tocar órgão numa basílica romana não é senão um acto de gratidão que se faz com a beleza da música.

No dia seguinte, a escala mudou de forma abismal. São Pedro não é uma igreja entre outras, é o lugar onde a memória de Pedro, a pedra sobre a qual tudo foi edificado, se torna fisicamente palpável. Sentar-me ao órgão construído junto à Capela da Cátedra, com a consola instalada junto ao Baldaquino, era estar no centro geométrico e simbólico de toda a Igreja Católica. O túmulo de Pedro debaixo do altar. A Gloria de Bernini à minha frente, com a janela de alabastro a filtrar aquela luz de Fevereiro. Atrás de mim, a nave estendia-se até ao pórtico, com duzentos metros de pedra, história e fé acumulada.

E não seria honesto dizer que pensei em tudo isto enquanto tocava. Ao órgão, numa liturgia viva, o que domina é a disciplina do instante: a respiração da assembleia, o ritmo da procissão, o gesto do celebrante, a acústica que demora segundos a devolver o som. Tudo isto que nos habituamos a ver nas televisões é, aqui, esmagador. E esta disciplina do presente, do momento, do instante, não permite grande margem para divagações. Mas há, nos minutos que antecedem e nos que se seguem, uma consciência aguda de sucessão. Quantos músicos, ao longo de cinco séculos, se sentaram numa posição equivalente à minha? Quantos fiéis ouviram, naquela mesma nave, o órgão acompanhar o mesmo rito? A liturgia católica é, afinal, uma corrente de transmissão ininterrupta. Cada organista que toca em São Pedro não acrescenta apenas a sua uma interpretação de algo existente, torna-se mais uma pequena gota num rio que corre e continuará a correr. «Lembrai-vos dos vossos guias, que vos anunciaram a Palavra de Deus, considerai o desfecho da sua vida e imitai a sua fé» (Heb 13, 7). Imitar a fé de quem nos precedeu não é apenas repetir os seus gestos, é um pouco mais, é aceitar que o lugar que ocupamos já estava preparado e que alguém, depois de nós, o ocupará.

Regressei a Lisboa com a mesma mala, mas com a escala interior alterada, não necessariamente com um ego maior, mas sim com um grande sentido de responsabilidade. Quem serve a liturgia com música sabe que o efeito mais duradouro de uma celebração não é o aplauso, que, aliás, não existe, nem o elogio, mas sim o modo como a experiência se instala, silenciosamente e vagarosamente, na forma como se vive o dia-a-dia.

Há uma frase, atribuída pela tradição a diversos santos, que encerra este programa inteiro na sua simplicidade e diz o seguinte: pulchritudo tam antiqua et tam nova, ou seja, beleza tão antiga e tão nova. É isso que a Tota Pulchra procura ser. Não um mero exercício de nostalgia nem de vanguardismo, mas uma forma de fidelidade ao que a Igreja sempre soube. A beleza é um caminho, talvez o mais directo, para aquilo que a razão, sozinha, não alcança. Colocar a composição, o órgão e a estratégia cultural, a diplomacia cultural ao serviço dessa linguagem universal é aceitar que servir a beleza, mesmo num gesto tão modesto como tocar um Voluntary inglês na procissão de saída de uma Missa Capitular, é já participar em algo que nos excede. E que permanece.

Rui Valdemar

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